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VISÃO AO DIRIGIR

Ver mal não se resume a não distinguir um sentido obrigatório de um sentido proibido, um sinal verde de um vermelho ou mesmo um poste de um cruzamento. Os problemas visuais que podem afetar a nossa forma de conduzir são muitos mais. Conheça-os um pouco melhor.

A visão é, de longe, o mais rico de todos os sentidos, do qual advêm cerca de três quartos das nossas percepções. Como uma sofisticadíssima máquina fotográfica, os olhos recebem os raios luminosos, controlam-nos, refletem-nos e fazem-nos convergir, transmitindo ao cérebro, para interpretação, as "fotografias" resultantes desse complexo processo.

O funcionamento do olho é, de fato, muito semelhante ao de uma máquina fotográfica: existe um sistema de lentes à frente, que recolhe e foca os raios de luz; a íris atua como o diafragma; a retina corresponde ao filme onde as imagens ficam registradas. Até existem proteções para as lentes: as pálpebras! A diferença significa encontra-se no fato de, ao contrário do rolo de filme da máquina fotográfica, a retina pode ser utilizada vezes sem conta, continuamente, captando as imagens a um ritmo de dez por segundo, ao longo de toda uma vida.

Infelizmente, poucas são as pessoas que gozam de visão perfeita durante toda a vida. Devido à sua estrutura tão delicada e complexa, os olhos são vulneráveis a uma série de lesões, doenças e distúrbios. Na maioria dos países do 1º mundo, cerca de metade da população usa óculos ou lentes de contato para correção de alterações dos olhos.

O papel que a visão representa ao nível da condução é o de transmitir as sensações luminosas ao cérebro que, interpretando-as, desencadeia os estímulos reflexos ou voluntários que farão modificar a marcha do veículo.
Assim, se este sentido funcionar mal, é de esperar que a viagem de automóvel, curta ou longa, também possa não correr muito bem. Se for verdade que se pode ter uma boa visão a ser um mau condutor, pelo contrário, não se pode esperar uma boa condução de alguém que veja mal. E num mundo em que cada vez há mais vítimas de acidentes, é imperativo que todos os sentidos dos condutores concorram para salvaguardar a sua segurança, bem como a dos outros.

A acuidade visual central é a capacidade que permite identificar os objetos à distância. Quanto melhor ela for, mais tempo o condutor terá para reagir. Esta capacidade pode ser gravemente afetada por diversos fatores, nomeadamente a fadiga, a idade e o consumo de tranqüilizantes ou de álcool. Outro fator importante é a anoxia - quando, por exemplo, se conduz muito tempo com os vidros todos fechados e sem ar condicionado, que se agravará com a ação tóxica do tabaco, aumentando a taxa de óxido de carbono no sangue e conduzindo a baixa visão que facilmente atingem os 10%. Esta acuidade visual tem de ser boa nos dois olhos para se poder obter uma correta sensação de profundidade ou terceira dimensão (visão estereoscópica). O conhecimento de que dois pontos estão a distâncias diferentes de quem observa, isto é, sensação de profundidade, está relacionado com o ângulo que formam entre si os dois eixos visuais quando se dirigem para tais pontos. Com um só olho, a profundidade e a distância avaliam-se com mais dificuldade. Quando se trata de conduzir, a visão periférica assume uma importância igual à visão central. É como um vigilante atento que nos alerta para tudo o que surge lateralmente. Torna-se essencial em todas as situações de condução, quer em cidade, quer em estrada, mas assume-se mais abertamente, isto é, nós damos mais pelo "uso", em cruzamento ou ultrapassagens.
Várias são as doenças que alteram profundamente a qualidade de visão periférica, das quais a mais conhecida é o glaucoma que, em fases avançadas, condiciona o doente a ver como que através de um estreito tubo.

Outra disfunção freqüente a este nível é a cromofobopatia, que mais não é do que uma forma deficiente de entender as cores. Um indivíduo em cada vinte é daltônico. Na forma mais comum - o "daltonismo" em relação ao vermelho e ao verde - a retina não possui os cones que detectam estas duas cores. Esta situação não é, ao contrário do que muitas pessoas pensam, um problema muito grave para a condução, uma vez que o condutor se habitua ao posicionamento das várias luzes dos semáforos, ficando a saber a qual delas correspondem determinada indicação. Mesmo em olhos sem problemas patológicos, há fatores que condicionam a visão. O abuso do álcool é um deles, nomeadamente porque, além de todas as outras "contra-indicações" já sobejamente conhecidas, afeta grandemente o tempo decorrente entre a percepção do obstáculo ou do perigo e a ação para o evitar. Reduz também, profundamente, a visão periférica.

De noite, surgem exigências acrescidas para a visão do condutor, devido ao desaparecimento da luz ambiente. As dificuldades mais comuns neste período são os efeitos de orientação espacial, que impedem a avaliação exata das distâncias, e o embaçamento, que não é igualmente sentido por todos, uma vez que determinadas alterações do olho conduzem a diferentes graus de desconforto.

Na retina existem dois tipos de células: cones e bastonetes. Os cones estão na zona central da retina, na zona "nobre", e são responsáveis pela visão diurna, mais discriminativa. Os bastonetes encontram-se predominantemente na periferia da retina e são os que de noite mais funcionam. O fato de umas células existirem predominantemente na zona central da retina e outras na zona periférica, conduz à diferença de qualidade da visão de dia e de noite. A qualidade de umas células e de outras varia de pessoa para pessoa. Daí que umas tenham mais dificuldades que outras em, por exemplo, ver de noite. Nestes casos, os bastonetes existem em menor número.

Há situações em que o olho esta muito sensível à luminosidade. É o caso de quem sofre de miopia, astigmatismo, início de catarata e glaucoma. Em situações em que não haja patologia, as dificuldades são maiores nas pessoas de íris claras, devido aos mais baixos níveis de melanina, o pigmento que dá cor aos olhos. A íris, um diafragma muscular que rodeia a abertura central da pupila, contrai-se e expande-se constantemente, reduzindo ou alargando as dimensões da pupila, a fim de controlar a quantidade de luz que entra no olho. Em situação de forte luminosidade, pode fechar tanto até ficar com 1,5 mm de diâmetro, enquanto no escuro pode abrir até 8,3 mm, recolhendo o máximo de luz possível. Esta reação é completamente automática e desencadeada pela intensidade da luz que atinge a retina.

A reação do olho ao embaçamento é exatamente este fechar de pupilas até ao nível em que se adapte a luz existente, possibilitando a melhor visão possível. Se, por qualquer motivo, o olho estiver impedido de fazer esta adaptação, nomeadamente por o corpo estar sob a ação de qualquer substância (medicamentos ou drogas) que dilate a pupila, ou por a luminosidade ser tão intensa ou rápida que não permita o tempo de acomodação que o olho necessita para reagir, então se dá o deslumbramento, e, num movimento instintivo de defesa, a pálpebra fecha. Esta é a situação que normalmente acontece quando de noite "levamos" em cheio com os faróis altos dos carros que se cruzam conosco.

Como se não bastassem os problemas que, naturalmente, os nossos olhos já nos dão, no caso da condução noturna temos de contar ainda com a inconsciência e falta de civismo dos outros condutores da estrada que usam os faróis altos indiscriminadamente, sem se preocupar com quem vem de frente. Pior ainda são as luzes de nevoeiro que, além de provocarem embaçamento, não ajudam em nada quem as usa a ver melhor fora das condições atmosféricas para que foram criadas. O fato é que, por mais luzes que usemos, a noite nunca terá as mesmas condições de luminosidade que o dia. Por isso, há que ter cuidados redobrados e respeitar os outros, para que tudo corra sem sobressaltos.

DR. JOÃO NASSARALLA